Meir Kucinski (1904-1976) Escritor polonês-brasileiro-judio que escrevei em iídiche/Polish-Brazilian-Jewish Writer who wrote in Yiddish. O seu conto aqui em portugués e inglês/ His short-story here in Portuguese and English

BA

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          Entre os intelectuais e escritores judeus de língua iídiche que emigraram da Europa Oriental para o Brasil, Meir Kucinski foi, sem sombra de dúvidas, um dos mais marcantes em São Paulo. Seu talento foi reconhecido pelas maiores autoridades em literatura judaica na Argentina, Israel e nos Estados Unidos. ‘Imigrantes, Mascates & Doutores’ reúne os escritos do autor, pela primeira vez em versão para o português. Os contos de Kucinski são sobre a história dos imigrantes judeus. Nelas aparecem os diferentes tipos humanos, os problemas econômicos e sociais, a ascensão socioeconômica e suas conseqüências no relacionamento social, os problemas familiares, relação de pais e filhos, enfim, a vida da sociedade judaica de São Paulo. Em cada relato do livro pulsam a própria experiência de imigrante do autor e as diferenças culturais e religiosas entre quem chega e quem aqui já vive. Os contos recuperam uma parte da história da imigração judaica; a luta e ideais daqueles que, temerosos e deslumbrados, aportaram no Brasil, na esperança de aqui reconstruir suas vidas.

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          Among the Yiddish-speaking Jewish intellectuals and writers who emigrated from Eastern Europe to Brazil, Meir Kucinski was, without a doubt, one of the most out-standing. His talent was recognized by the leading authorities in Jewish literature in Argentina, Israel and the United States.  Immigrants, Peddlers & Doctors brings together the writings of the author, for the first time in Portuguese. Kucinski’s tales are about the history of Jewish immigrants. In them they appear the different human types, their economic and social problems, their socioeconomic rise and its consequences in the social relations, the familia problems, relationships between parents and children, in short, the life of Jewish society of São Paulo. In each story of the book, the author’s own experience as an immigrant and the cultural and religious differences between those who are arriving and those who already live in Brazil. The tales recapture a part of the history of Jewish immigration; the struggle and ideals of those who, fearful and dazzled, contributed to Brazil, hoping to rebuild their lives there.

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CHAMPANHE AUTÊNTICO FRANCÉS

Traduçáo de iídich por Cilka Thalenberg
Editão por Simone Elias

          Manuel voltou para casa com sua mulher Rebeca, do grandioso casamento no clube francês. Aquele tinha sido o primeiro casamento judaico no novo, num  elegante e aristocrático salão.

          Os mekhetunim, os consogros, eram judeus de Bom Retiro e clientes do banqueiro Manuel: Um fabricante de calças Faivisch Glatzkop, que para sua filha em casamento o filho do fabricante de casacos Moshe Pildermascher. Marido e mulher tiram seus agasalhos e se acomodam, um em frente ao outro, nas poltronas confortáveis.

           “Madame banqueira” acende o discreto abajur que está a meio da salão, criando um clima agradável, enquanto os tapetes antigos e fofos envolvem, como os como os feixes de luz do abajur, melhoraram atmosfera entre o casal banqueiro.

          Naquele momento eles comentam a festa do casamento, de onde acabaram de voltar à qual foram, principalmente, para observar e planejar a organização da Teófila deles, que está próximo e deveria realizar-em três meses naquele mesmo clube francês. Eles ficaram indignados, com o atrevimento daqueles confeccionistas do Bom Retiro, que dependem dele, do banqueiro Manuel, por terem se antecipado e, antes dele, banqueiro Manuel, seu financiador, conseguirem o salão francês: aquilo era um desaforo!

          Novos-ricos se metem onde não devem, horrível!

          Apesar de tudo, o casamento tinha sido ultramoderno (o casal de banqueiros se espanta, imaginando como e onde aqueles “alfaiatezinhos” tinham aprendido tanto). Em primeiro lugar o salão, o clube francês, que está escondido, numa alameda de uma região aristocrática de São Paulo, que tem uma cozinha e um bufê com comidas francesas: lagostas e outros fruto do mar servidos em conchas originais marinhas. Contratarem, ainda, uma orquestra francesa com músicos de Paris, que embalava a juventude que se espremia entre as filas de mesas, numa ondulante e silenciosa dança. Ao mesmo tempo, a discreta e autêntica música francesa, envolvia e acalentava os quase adormecidos casais, dando-ilhes um ar de seres lunáticos iluminados pelos casais que lançavam luzes e sombras sobre os pares que silenciosamente arrastavam os pés, com si estivessem dançando.

          Era tudo a francesa, Made in France. Mas o casal banqueiro, exclusivamente aristocrático, logo reconheceu dos parvenues, os novos ricos. 

           Aqueles alfaiates do Bom Retiro, fabricantes de roupas de carregação, que tinham tido uma boa temporada por causa do frio de aquele ano, em vez de reforçarem seus créditos, tinham-se lançado à nova moda de um casamento à francesa.

          –Esse povo, criado con guefilte fisch, peixe recheado… sentenciou Rebeca, a gourmet, e bateu com suas luvas prateadas. — Não deveríamos ter ido a esse casamento plebeu; poderíamos, só como obrigação, mandar o presente. Agora, seremos obrigados a convidar todos eles para o casamento da Teófila.

           Manuel olhou atentamente a sua esposa.Em estilo bancário ele fechou os olhos, como que estivesse decidindo sobre una operação de crédito: Dar un empréstimo o não uma pessoa do Bom Retiro? Um sorriso espalhou-se a partir de suas grossas, peludas e escovadas sobrancelhas até o esbelto, aristocrático e delicado rosto. Os finos lábios cerrados, como seus olhos, com seu nariz torneado e polido como un relógio de coluna ornamentado. Tudo em Manuel brilhava; as lapelas enormes, com pespontos prateados, o brilhante na gravata, as abotoaduras e até o bigodinho prateado sobre seus finos lábios e sob suas narinas cerosas e torneadas.

          Afinal o cansado Manuel abriu os olhos e como após uma operação bancária, respondeu à mulher:  — Não, não é isso, o champanhe do senhor Faivisch não era o legítimo champagne francês e é justamente nisso que se reconhece o pé-rapado de ontem. Para o casamento da Teófila vou eu próprio à França para trazer o champagne autêntico. É nesses detalhes se reconhece o aristocrata — Manuel ficou feliz, medindo suas palavras; pela oportunidade de utilizar sua frase predileta.

          Madame Rebeca, satisfeita com o rumo inesperado que a conversa tomara, concordou prontamente. É que ela já tinha preenchido uma lista de peças de vestuário que teriam de ser trazidos del exterior, pois não eram encontradas nem nas lojas de roupas exclusivas da quais ela é cliente habitual.

           — Sim! O mais certo é irmos nós mesmos. Falsos brilhantes se reconhecem logo, falso champanhe, não. Nós iremos pessoalmente a Paris. É o casamento da nossa Teófila. Os nossos mekhetunim, os consogros, esses não são confeccionistas do Bom Retiro; os Frisels são outra gente…

          Feliz com consentimento da mulher, Manuel retorno á sua imobilidade, de olhos fechados, petrificado como uma múmia reluzente. Cerrou seus finos lábios, afilou su nariz de marfim torneado e brilhante e, antes de seu tempo, se embalou na próximo viajem… Já se via entrando em uma maravilhosa casa de vinhos e conhaques em Paris, negociando dezenas de caixas de champagne e de conhaque…  Via as cores violeta dos lacres de chumbo, os rótulos… as finas etiquetas, tudo envolto de papel de seda. Chegou a sentir o aroma maravilhoso do conhaque que emanava das bocas prateadas de garrafas arrolhadas.

          No dia seguinte o banqueiro reservou os passagens pelo telefone, para si e para a madame, naturalmente na primeira classe. A data do casamento da sua Teófila, estava se aproximando. O vôo para Paris saía nas terças à tarde e, como sempre, nas vésperas da partida, o casal fez-se examinar pelo médico. Não nos horários habituais das consultas, mas fora do expediente, quando não há mais clientes no consultório. Primeiro entrou Manuel. A madame ficou aguardando, folheando entediada umas revistas. Folheou-as longamente.

           “Por que demora tanta a consulta?”

           De súbito, entra correndo o médico, muito nervoso, e avança para a assustada madame Rebeca:

            – – O quê?! Champagne? Champagne francês? O senhor Manuel já está há dias enfartado! É um milagre ele ainda estar de pé. Já requisitei uma ambulância pelo telefone! Sua pressão é zero!! Zero!! Internar já!! Até segunda ordem ele deve se manter imobilizado por algumas semanas! Nada de visitas!

          Gesticulando, indignado, o médico ainda não se conformava:

          –Pois é! Champagne! Um balão de oxigênio e o que ele precisa! Ele corre perigo de morte!…

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Iimigrantes

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AUTHENTIC FRENCH CHAMPAGNE

Translated from Yiddish by Cilka Thalenberg

          Manuel came home with his wife Rebeca, from the grandiose wedding at the French Club. It had been the first Jewish wedding in the the new, elegant and aristocratic ballroom.

          The mekhetunim, or “co-in-laws” were Jews from Bom Retiro and clients of the banker Manuel: the trouser manufacturer Faivisch Glatzkop had given his daughter in marriage to the son of the manufacturer of coats Moshe Pildermasche. Husband and wife take their places and make themselves comfortable, facing each other, on the soft armchairs.

           “Madam Banker” raises the discreet lampshade that is in the middle of the living room, creating an agreeable ambience, while the antique and soft rugs, as well as the rays of light coming from the lampshade, enhanced the atmosphere between the banking couple.

           At the moment, they are commenting on wedding party, from which they had just returned to which they had gone, principally, to observe and make plans for the arrangements for their Teófila, whose wedding was happening soon and ought to talk place in three month in that same French Club. They were indignant about the NERVe of those  clothing makers from Bom Retiro, who depend on him, the banker Manuel, for having beaten him to the punch, and ahead of him, the banker Manuel, their creditor , and gotten hold of the French ballroom; that was an affront!

           The nouveau riche get themselves into places where they don’t belong. Horrible!

          In spite of everything, the wedding had been ultra-modern (the banker couple was shocked, imagining how and where those “little tailors” had learned so much.) In the first place the ballroom, the French Club, that is hidden away, in an esplanade in an aristocratic section of São Paulo, that has a kitchen and a buffet with French dishes: lobsters and other seafood served in their original shells. It employed, even, a French orchestra with musicians from Paris that lulled the young people to squeeze between the rows of tables, in an undulating and silent dance. At the same time, an unobtrusive and and authentic French music, surrounded and lulled the couples who were almost asleep, giving them an air of lunatic beings, illuminated by the candles, that threw light and shadows over the couples who silently dragged along their feet as if they were dancing.

        It was completely French-style. Made in France. But the banker couple, exclusively aristocratic, soon identified/saw them as parvenues, the nouveau riche.

          Those tailors from Bom Retiro, manufacturers of heavy clothing, who had had a good season because of the cold weather that year, instead of strengthening their credit, had thrown themselves into the new fashion of having a  French-style wedding.

          “Those people, raised with guefile fisch, ground up fish,” Rebeca proclaimed, “now it’s gourmet, and beaten with silver gloves on. We shouldn’t have gone to that plebeian wedding; we could have, by obligation, sent a present. Now we will be obliged to invite all of them to Teófila’s wedding.”

        Manuel looked intently at his wife. In a banker’s fashion, he closed his eyes, as when was deciding about a credit issue: to make a loan or not to a person from Bom Retiro. A smile broke out from his thick, hairy/hirsute and brushed eyebrows and even his slim, aristocratic and delicate face. Hi fine, closed lips, like his eyes, with his nose rounded and polished like a clock on an ornamented column. Everything about Manual shined; his enormous lapels with silvered stitching, the brilliance in the tie, the buttons and even the slim, silvery mustache above his fine lips and beneath his waxy and rounded nostrils.

           Finally, a tired Manuel opened his eyes and as after a piece of banking work, answered his wife:  –No, no it’s not that, Mr. Faivisch’s chapagne wasn’t real French champagne, and it’s just from that, that you can see their uncouthness. For Teófila’s wedding, I myself are going to France  to bring back authentic champagne. And in such details, you can tell the aristocrat– Manuel was cheered up, measuring his words, looking for the opportunity to use his favorite phrase.

          “Yes, we will go ourselves. False jewels can be taken for true, false champagne, no. We will go to Paris, in particular. It’s our Teófila’s wedding. Our mekhetunim, our co-in-laws, they are not clothing makers from Bom Retiro: the Freisls are another sort of people… “

           Happy with his wife’s agreement, Manuel returned to his state of immobility, with his eyes shut like a shining mummy. He closed his fine lips, stroked his nose of round and brilliant/shining marble, and, right away, began mentally packing for his next trip…  He already saw himself entering the marvelous house of wines and cognacs in Paris, haggling over dozens of crates of champagne and cognac; he saw the colores of the leaden sealing wax, the labels.. the fine brands, everything wrapped in silk paper. He began to smell the marvelous aroma of the cognac that emanated from the silver mouths of  corked bottles.

         The next day, the banker made the reservations by phone for himself and for his wife, in first class, of course. The day of Teófila’s was approaching, The flight to Paris left on Tuesday afternoons, and as alway, on the eve of a departure, the couple went for a medical checkup. Not during the regular hours for appointments, but outside of business hours, when there were no other patients in the doctor’s office. Manuel went in first. Madam waited, bored, leafing through some magazines. She waited for a long time.

          “Why was the exam taking so long?”

          Suddenly, the doctor came in running, and went toward the frightened Madam Rebeca.

          “What?! Champagne? French champagne? Mr. Manuel had a heart attack days ago! It’s a miracle that he is still on his feet. I called an ambulance by phone! His blood pressure is zero!!  Zero!!  Put him in the hospital! Until the next order, he must be kept immobilized for several weeks! No visitors!”

        Gesticulating, indignant, the doctor was still beside himself:

       “So that’s it! Champagne! A tank of oxygen is what he needs! He is in danger of dying.”

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Translation from the Portuguese by Stephen A. Sadow

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