Moacyr Scliar (1937-2011) — Novelista y contista brasileiro judeu/Brazilian Jewish “A vaca” — un conto/ “The Cow” — A Short-story

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Moacyr Scliar

Moacyr Jaime Scliar nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no 1937. A partir de 1943, cursa a Escola de Educação e Cultura, conhecida como Colégio Iídiche. Em 1948, transfere-se para o Colégio Rosário. Começa a cursar medicina em 1955, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Especializou-se na área de saúde pública, tornando-se médico sanitarista e ocupando os cargos de chefe da equipe de Educação em Saúde da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul e diretor do Departamento de Saúde Pública.

Na década de 1970, cursou pós-graduação em medicina, em Israel, e também se tornou doutor em Ciências pela Escola Nacional de Saúde Pública. Ainda na área médica, atuou como professor do curso de medicina da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.

O dia a dia de estudante de medicina inspirou a Scliar o seu primeiro livro, “Histórias de um médico em formação”, publicado em 1962. Foi o começo de uma brilhante carreira como ficcionista, durante a qual publicou mais de setenta livros, divididos entre romances, coletâneas de contos e crônicas, literatura infantojuvenil e ensaios. Seu romance “O centauro no jardim”, publicado em 1980, faz parte da lista dos 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos, organizada pelo National Yiddish Book Center (EUA).

Scliar conquistou diversos prêmios literários, como, por exemplo: três prêmios Jabuti (nas categorias “romance” e “contos, crônicas e novelas”); o Prêmio  da Associação Paulista dos Críticos de Arte, em 1989, na categoria “literatura”; e o Casa de las Americas, em 1989, na categoria “conto”. Seus livros foram traduzidos em inúmeros países.

Em 1993 e 1997, foi professor visitante na Brown University e na Universidade do Texas, ambas nos EUA.

Moacyr Scliar faleceu no 2011.

Adaptado de educação,uol,br

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Moacyr Jaime Scliar was born in Porto Alegre, Rio Grande do Sul, in 1937.  From 1943, he attended the School of Education and Culture, known as Yiddish School. In 1948, he transferred to the Rosario School. He began to study medicine in 1955, at the Federal University of Rio Grande do Sul. He specialized in public health. and was head of the Health Education team of the Rio Grande do Sul Health Secretariat South and director of the Department of Public Health.

In the 1970s, he did post-graduate studies in medicine in Israel, and also received a doctorate in science from the National School of Public Health. Also, in the medical area, he acted as professor of the medicine of the Federal University of Health Sciences of Porto Alegre.

His experience as a medical student inspired Scliar his first book, “Stories of a Physician in Training,” published in 1962. It was the beginning of a brilliant career as a fictionist, during which he published more than seventy books, divided between novels, compilations of short stories and chronicles, children’s literature and essays. His novel “The Centaur in the Garden,” published in 1980, is one of the 100 best Jewish-themed books of the last 200 years, organized by the National Yiddish Book Center.

Scliar won several literary awards, such as three Jabuti awards (in the categories “romance” and “short stories, chronicles and novels”); the Prize of the Paulista Association of Art Critics, in 1989, in the category “Literature”; and the Casa de las Americas Prize, in 1989, in the category “short story”. His books have been translated into countless countries.

In 1993 and 1997, he was a visiting professor at Brown University and the University of Texas, both in the United States.

Moacyr Scliar passed away in 2011,

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“A vaca”

 

Numa noite de temporal, um navio naufragou ao largo da costa africana. Partiu-se ao meio, e foi ao fundo em menos de um minuto. Passageiros e tripulantes pererecam instantaneamente. Salvou-se apenas um marinheiro, projetado à distância no momento do desastre. Meio afogado, pois não era bom nadador, o marinheiro orava e despedia-se da vida, quando viu a seu lado, nadando com presteza e vigor, a vaca Carola.

A vaca Carola tinha sido embarcada em Amsterdam.

Excelente ventre, fora destinada a uma fazenda na América do Sul.

Agarrado aos chifres da vaca, o marinheiro deixou-se conduzir; e assim, ao romper do dia, chegaram a uma ilhota arenosa, onde a vaca depositou o infeliz rapaz, lambendo-Ilhe o rosto até que ele acordasse.

Notando que estava numa ilha deserta, o marinheiro rompeu em prantos: “Ai de mim! Esta ilha está fora de todas as rotas! Nunca mais verei um ser humano!” Chorou muito, prostrado na areia, enquanto a vaca Carola fitava-o com os grandes olhos castanhos.

Finalmente, o jovem enxugou as lágrimas e pôs-se de pé.

Olhou ao redor: nada havia na ilha, a não ser rochas pontiagudas e umas poucas árvores raquíticas. Sentiu forme: chamou a vaca: “Vem Carola!”. Ordenou-a e bebeu leite bom e espumante. Sentiu-se melhor; sentiu-se e ficou a olhar o oceano. “Ai de mim” – gemia de vez em quando, mas já sem muita convicção; o leite fizera-lhe bem.

Naquela noite dormiu abraça o á vaca. Foi um sono bom, cheio de sonhos reconfortantes: e quando acordou – ali estava o ubre a ilhe oferecer o leite abundante.

Os dias foram passando e o rapaz cada vez mais se apegava a vaca. “Vem, Carola!” Ela vinha, obediente.

Ele cortava um pedaço de carne tenra – gostava muito de língua – e devorava-o cru, ainda quente, o sangue escorrendo pelo queixo. A vaca nem mugia. Lambia as feridas, apernas. O marinheiro tinha sempre o cuidado de não ferir órgãos vitais; se tirava um pulmão; deixava o outro; comeu o baço, mas não o coração, etc.

Com os pedaços de couro, o marinheiro fez roupas e -sapatos e um toldo para abriga-lo do sol e da chuva. Amputou a cauda de Carola e usava-a para espantar as moscas.

Quando a carne começou a escassear, atrelou a vaca a um tosco arado, feito de galhos, e lavrou um pedaço de terra mais fértil, entre as árvores.

Usou o excremento do animal como adubo. Como fosse escasso, triturou alguns ossos, para usá-los como fertilizante.

Semeou alguns grãos de milho, que tinham ficado nas cáries da dentadura de Carola. Logo, as plantinhas começaram a brotar e o rapaz sentiu renascer a esperança.

Na festa de São João comeu canjica.

A primavera chegou. Durante a noite uma brisa suave soprava de lugares remotos, trazendo sus aromas.

Olhando as estrelas, o marinheiro suspirava. Uma noite, arrancou um dos olhos de Carola, misturou-o com água do mar e engoliu esta leve massa. Teve visões voluptuosas, como nenhum mortal jamais experimentou. . .  Transportado de desejo, aproximou-se da vaca. . .  E ainda desta vez, foi Carola quem ilhe valeu.

Muito tempo se passou, e um dia o marinheiro avistou um navio no horizonte. Doido de alegria, berrou com todas as forças, mais não Ihe respondiam; o navio estava muito longe. O marinheiro arrancou um de chifres de Carola e improvisou uma corneta. O som poderoso atroou os ares, mas ainda assim não obteve reposta.

O rapaz desesperava-se; a noite caia e o navio afastava-se de ilha. Finalmente, o rapaz deitou Carola no chão e jogou um fósforo aceso no ventre ulcerado de Carola, onde um pouco de gordura ainda aparecia.

Rapidamente, a vaca incendiou-se. Em meio á fumaça negra, fitava o marinheiro com seu único olho bom. O rapaz estremeceu, julgou ter visto uma lágrima. Mas foi só impressão.

O claro chamou atenção do comandante do navio; uma lancha veio recolher o marinheiro. Iam aí partir, aproveitando a mar, quando o rapaz gritou: “Um momento!”; voltou para a ilha, e apandou, do montículo de cinzas fumegantes, um punhado que guardou dentro do gibão de couro. “Adeus, Carola – murmurou. Os tripulantes da lancha se entreolharam. “É o sol” – disse um.

O marinheiro chegou a seu país natal. Abandonou a vida do mar e tornou-se um rico e respeitado granjeiro, dono de um tambo com centenas de vacas.

Mas a pesar disto, vivou infeliz e solitário, tendo pesadelos horríveis todas as noites, até os quarenta anos. Chegando a esta idade, viajou a Europa de navio.

Uma noite, insone, deixou o luxuoso camarote e subiu ao tombadilho iluminado pelo luar.  Acendeu um cigarro, apoiou-se na amura e ficou olhando o mar..

De repente estirou o pescoço, ansioso. Avistara uma ilhota no horizonte.

— Alô – disse alguém, pelo dele.

Voltou-se. Era uma bela loira, de olhos castanhos e busto opulento.

— Meu nome é Carola – disse ela.

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De:/From: Moacyr Scliar. Sus mejores cuentos. São Paulo, 1996.

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“The Cow”

 

On a stormy night, a ship went down off the African coast. It broke in half, and went to the bottom in less than a minute. Passengers and crewmen perished instantly. Only one sailor was saved, thrust out at a distance at the moment of the disaster. Half-drowned, since he wasn’t a good swimmer, the sailor prayed and said goodbye to his life, when he saw at his side, swimming quickly and vigorously, the cow Carola.

The cow, Carola had been put onboard in Amsterdam.

Excellent belly, she was destined for a farm in South America.

Grasping on the cow’s horns, the sailor let himself be guided, and so, at the break of day, they arrived at a little sandy island where the cow deposited the unhappy boy, licking him on his face until he woke up.

Noticing that he was on a desert island, the sailor broke out wailing: “Woe is me!” The island is outside al the shipping routes. I’ll never see a human being again.” He cried a great deal, prostrated on the sand, while the cow Carola stared at him with chestnut eyes.

Finally, the boy dried his tears and stood up. He looked around: there was nothing on the island, but sharp rocks and a few rickety trees. He felt hungry: he called the cow: “Come Carola!” He ordered her and he drank good and frothy milk. He felt better; he felt and he turned to look at the ocean. “Woe is me” – he sighed from time to time, but now without much conviction: the mild did him good.

The sailor arrived at his native land. He abandoned the sailor’s life and became a rich and respected farmer, owner of a dairy farm with hundreds of cows.

That night he slept hugging the cow. I was a good dream; full of comforting sounds; and when he awoke – there was the utter offering him abundant milk.

The days passed, and the boy more and more fond of the cow. “Come, Carola!” She came obediently.

He cut off a piece of tender meat—he liked the tongue a lot—and he devoured it raw, still hot, the blood flowing over his chin. The cow didn’t moo. She hardly licked her wounds. The sailor always took care to no injure the vital organs; he took out a lung; he left the other one; he ate the spleen, but not the heart, etc.

With the pieces of leather, the sailor made clothing and shoes and a canopy/awning to protect himself from the sun and the rea. He amputated Carola’s tail and used it to chase flies away.

When the meat began to become scarce, he harnessed the cow to a crude plow, made of pieces of wood and tilled a piece of the most fertile land among the trees.

He used the animal’s excrement for compost. As it was scarce, he ground up some bones, to use them as fertilizer.

He planted some grains of corn, which he had stuck in the cavities of Carola’s teeth. Then, the plants began to sprout and the boy felt a resurgence of hope.

On Saint John’s Day, he ate hominy.

Spring arrived. During the night, a gentle breeze blew in from remote places, bringing their fragrances.

Gazing at the stars, the sailor sighed. One night, he tore out one of Carola’s eyes, mixed it with seawater and swallowed this light paste. He had voluptuous visions, as no mortal had ever experienced. . . Carried away with desire, he came near the cow. . . And this time too, it was Carola whom he wanted.

A great deal of time passed, and one day, the sailor caught sight of a ship on the horizon. Crazy with happiness, he hollered with his strength, but nothing, but there was no answer; the ship was very far away. The sailor tore off one of Carola’s horns and improvised a bugle. The powerful sound thundered through the air, but even so, it wasn’t answered.

The boy was losing hope; it was nightfall and the ship remained at a distance from the island. Finally, the boy laid Carola down on the ground and threw down a match and lit Carola’s ulcerated belly on fire, at a spot where a little bit of fat still appeared.

Rapidly, the cow caught fire. Amidst the black smoke, she stared at the sailor with her only good eye. The boy trembled and was sure he had seen a tear. But it was only an impression.

The bright light caught the attention of the commander of the ship, a launch set out to rescue the sailor. Leaving there, taking advantage of the sea, when the boy shouted: One moment!”; he returned to the island, and gathered, from the little pile of smoking ashes, a handful that he saved inside of his leather doublet. “Goodbye, Carola” – he murmured. The crew of the launch looked at one another. “It’s the sun!” one said.

But, in spite of this, he lived unhappy and alone, having horrible nightmares every night for forty years. Reaching this age, he travelled to Europe by ship.

One night, suffering insomnia, he left the luxurious cabin and went up to the quarterdeck, lit up by the moonlight.

Suddenly, he stretched his neck anxiously. He caught sight of a small island on the horizon.

“Hello,” said someone nearby him.

He turned around. It was a beautiful blond, with chestnut eyes and an opulent bust.

“My name is Carola,” she said.

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Translation by Stephen A. Sadow

 

Livros/Books — Moacyr Scliar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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